Indicações literárias

Confira as sugestões de leituras breves, mas inspiradoras, selecionadas pela equipe da Biblioteca Padre Charbonneau

Narrativas breves têm povoado as estantes de bibliotecas e livrarias. Questão de tempo, objetividade, capacidade de síntese, estilo ou outras tantas possibilidades; o fato é que elas têm caído no gosto dos leitores.

Nesta edição, indicamos quatro leituras para uma sentada, porém não se engane: são textos rápidos, mas que permitem refletir por longas horas, dias, uma vida!

Vamos comprar um poeta

Autor: Afonso Cruz

Editora Dublinense

Um bom livro para se ler em uma sentada é o que define Vamos comprar um poeta. Em um texto coberto de poesia e recheado de crítica anticapitalista, Afonso Cruz conta a história de uma família que, ao se ver sem um ‘pet’, define que vai adquirir um poeta. Na realidade do livro, é possível comprar artista e, para a família protagonista, nenhum artista seria mais fácil de cuidar do que um chato e quieto poeta. A história se desenrola e a família percebe que as coisas não seriam exatamente como havia pensado, e o poeta torna-se um desencadeador de pensamentos e questionamentos quanto àquela sociedade que, dominada pelo materialismo, permite que seus artistas sejam “consumíveis”.

             Alex Sandro Loureço da Silva

Ismália

Autor: Alphonsus de Guimaraens

Ilustrações: Odilon Moraes

Editora: Cosac Naify e Sesi-SP

Ismália, poema do mineiro Alphonsus de Guimaraens, é repleto de elementos misteriosos que nos cativam, com uma abordagem lírica, subjetiva e sombria. A representação da loucura e do suicídio  aparece como uma forma de escape da realidade e da busca pelo objeto de desejo, envolvendo a (des)ilusão como fator principal da insanidade.  

O autor descreve, com profunda sutileza um anjo selenófilo, cuja obsessão por uma lua dupla – esta, envolta em metáforas e ambiguidades – fez perder-se em devaneios, levando ao desfecho fúnebre, carregado de representações e significados.

A riqueza de imagens que Ismália proporciona permite que sua leitura seja feita com mais diversos enfoques, o que pode se promover pela musicalidade, pelas antíteses, pelo misticismo e tantos outros aspectos que fizeram parte do Simbolismo brasileiro.

A Biblioteca Pe. Charbonneau conta com uma edição rara, quase artesanal, projeto especialíssimo do artista Odilon Moraes, que deu ao poema uma leitura extremamente autoral e o transformou em cor, tato e movimento neste livro-objeto. Ele vem dentro de uma caixinha, sua capa é revestida de tecido e suas páginas se emendam como uma sanfona. Ao abri-lo, o leitor é convidado a mergulhar em imagens – lindas aquarelas em tons ocre – que desdobram, quadro a quadro, os versos do grande poeta mineiro.

           Jéssica Aline Barros Falcundes

Morreste-me

Autor: José Luís Peixoto

Editora: Dublinense

“Quando vires os teus olhos a verem-te, quando não souberes se tu és tu ou se o teu reflexo no espelho és tu, quando não conseguires distinguir-te de ti, olha para o fundo dessa pessoa que és e imagina o que aconteceria se todos soubessem aquilo que sabem sobre ti.”

José Luís Peixoto, nascido no Alentejo/Portugal, tornou-se um nome de peso na literatura após a publicação desta sua primeira obra. Pesado também é o tema central de Morreste-me. Peixoto propõe uma narrativa em primeira pessoa e diálogos com um pai ausente: é comovente. O luto pela perda do pai e de parte de si próprio evoca lembranças de histórias vividas, ensinamentos, sonhos… que são compartilhados numa prosa costurada com maestria entre um e outro, e com os leitores. Não há como não se entregar à empatia e resgatar ou antecipar situação similar que vivemos ou viveremos. O jogo entre passado e presente, idas e vindas, vida e morte vão conduzindo a narrativa e provocando: quem somos? o que somos? o que se perde quando um de nós se vai? Não é leitura leve ou fácil, mas a poesia é um conforto que convida à reflexão e à releitura. Indispensável!

Ellen Rosenblat

O caderno do jardineiro

Autora: Angela-lago

Editora: SM Edições

Ler “em uma sentada” pode não representar o tempo real em que um livro ou uma leitura fica conosco de verdade, reverberando dentro de nós. Podemos até ler rápido, mas a duração da leitura tem a ver com outra coisa. O caderno do jardineiro é um bom exemplo disso.

O tamanho do livro pode até dar ideia de uma leitura rápida. Mas a composição de cada detalhe da obra nos convida a ir e vir e fazer diferentes imersões, encontrando detalhes, às vezes escondidos na dobra do livro, no virar da página, na transparência que esconde e revela a coleção de flores e, claro, a apreciação dos poemas em si, das palavras cinzeladas na página… situações quase intermináveis de descobertas e maravilhamentos e a sensação de termos em mãos um caderno em forma de livro, que coleciona belezas, em flores e em palavras.

Sandra Medrano

O perigo de uma história única

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Editora: Companhia das Letras

Encontrei este livro no cantinho de uma mesa, em uma conhecida livraria da cidade. Não só o título me chamou atenção, mas também o fato de ser pequeno, visto que tenho na cabeceira vários outros títulos que aguardam uma brecha em minha rotina, para leitura.  

O perigo de uma história única é daqueles livros que se lê em “uma sentada”. Mas engana-se quem pensa que a leitura se encerra na última página. Chimamanda nos conquista e nos envolve em cada trecho, e toda a leitura rende boas reflexões. Reflexões que nos ocupam por horas, muito mais do que as previstas.

De forma simples, a romancista nos fala sobre o quanto é perigoso nos apegarmos a uma única narrativa, dando exemplos de sua própria trajetória. A autora nos conta a história de como descobriu sua voz cultural – “A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos[…]”.

Uma leitura prazerosa e ao mesmo tempo provocativa. Leva-nos a pensar quão vulneráveis somos diante de uma única história. As histórias importam.

Silvia Helena Casatle

Assista a palestra realizada pela escritora em:

Mais algumas sugestões

A alma perdida, de Olga Tokarczuk (Autor), Joanna Concejo (ilustradora). Ed. Todavia.

Bartleby, o escrivão: Uma história de Wall Street, de Herman Melville. Ubu Editora.

Bonsai, de Alejandro Zambra. Companhia das Letras.

Elegia do irmão, de João Anzanello Carrascoza. Ed. Alfagarra.

O Alienista, de Machado de Assis. Ed. Principis.

O paraíso são os outros, de Valter Hugo Mãe. Ed. Biblioteca Azul.

Olhos d´água, de Conceição Evaristo. Ed. Pallas.

Kafka e a boneca viajante, de Jordi Sierra i Fabra. Editora Martins Fontes.

O homem que plantava árvores, de Jean Giono. Editora 34.

Solo para vialejo, de Cida Pedrosa. Editora CEPE.

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