Ser mãe: o que os livros ousam dizer

Tarde Literária reuniu escritoras e público na biblioteca do Colégio para uma conversa honesta sobre o lado menos solar da maternidade

Na tarde da última sexta-feira, 29 de maio, a biblioteca do Colégio Santa Cruz foi palco de um encontro literário que trouxe à escola duas vozes corajosas da literatura contemporânea para falar do que tantas vezes fica em silêncio: a carga e a beleza crua de ser mãe.

As convidadas
A escritora catalã Mar García Puig chegou a São Paulo com seu livro de estreia, A história dos vertebrados, já premiado com o Prêmio Cidade de Barcelona. Formada em Filologia e Literatura Inglesas pela Universidade de Barcelona, com mestrado em Linguística, Mar construiu uma trajetória como editora, tradutora e, depois, como deputada no Congresso espanhol entre 2016 e 2023. Em seu livro, ela narra um ponto de virada brutal: o dia em que deu à luz seus filhos gêmeos, Sara e David, foi o mesmo em que foi eleita deputada. O que se seguiu foi uma crise de ansiedade pós-parto que a levou, com rigor intelectual e coragem pessoal, a reescrever séculos de história das mulheres silenciadas pela maternidade.

A jornalista e escritora paulistana Marcella Franco apresentou Solo, seu primeiro livro, no qual cria o filho sozinha e escreve diretamente para ele, equilibrando, em cada página, o peso e a ternura do cotidiano. O livro tem uma estrutura incomum: a voz da mãe e a voz do filho narram os mesmos acontecimentos sob perspectivas distintas. Bacharela em Letras, com pesquisa em literatura biográfica e epistolar, Marcella é também autora do podcast Criando Caso e ministra oficinas de escrita criativa desde 2018.

O que os livros ousam dizer
A mediação ficou a cargo de Maria Flor Cali, editora de comunicações do Colégio. Mãe de três filhos, ela abriu o evento elogiando as autoras pela coragem de trazer à tona vivências pessoais de maternidade, que se tornaram obras universais, com as quais muitas pessoas podem se identificar.

Os dois livros, diferentes no tom e na forma, convergem numa mesma pergunta essencial: o que nos custa, de verdade, ser mãe? Mar García Puig mergulhou em uma rigorosa pesquisa histórica para mostrar que as “loucas puerperais vitorianas” e sua própria experiência no pós-parto são, no fundo, o mesmo fenômeno, e que escrever sobre maternidade e saúde mental das mulheres é um ato político tanto quanto pessoal. Marcella Franco, por sua vez, ofereceu ao leitor, com honestidade e poesia, uma experiência de maternidade solo, com sua carga física e mental, seus medos e inseguranças, mas também as alegrias de um vínculo e de um companheirismo que vão se criando com esse filho, que cresce saudável, curioso e bem amparado.

Da expectativa à materialidade
O debate também tocou no abismo entre o que se imagina da maternidade e o que ela, de fato, é. Em A história dos vertebrados, Mar escreve sobre como concebeu a maternidade por anos como ideia abstrata: projeto de vida, modelo de família, aposta política, até se deparar com “algo visceral que me aterroriza, que me ultrapassa, que resiste ao raciocínio”. Marcella, por sua vez, falou da maternidade solo como marcada, em primeiro lugar, pela ausência da figura do pai, mas de outras faltas também. Contou de momentos em que teve que abrir mão da vida social e até de viagens de trabalho, por não ter com quem deixar o filho. “Eu tinha uma rede de apoio muito pequenininha e, muitas vezes, éramos só eu e ele”.

Ao final, a plateia pôde fazer perguntas, e surgiram temas como o que fazer diante do sofrimento dos filhos, como a maternidade se reflete na relação com nossas próprias mães e até “como não enlouquecer diante da maternidade?”. As autoras responderam com a mesma sinceridade comovente com que escreveram suas obras, com o objetivo de que essa conversa essencial continue.

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