Conhecimento escolar: relações e experiências

“Os usos escolares delimitam o significado do que chega a se converter em uma cultura específica: o conhecimento escolar.”

José Gimeno Sacristán. Saberes e incertezas sobre o currículo. São Paulo: Penso, 2013.

A concepção de currículo veiculada por um projeto pedagógico como o nosso, que dialoga com a juventude e seu tempo, almeja oferecer diferentes experiências de aprendizagem em que o conhecimento próprio da escola esteja relacionado com o desenvolvimento do pensar e do sentir.

Os conteúdos curriculares, tanto quanto seus usos e contextos na escola, definem essa cultura escolarizada de conhecimento. Elabora­do a partir das linguagens e das lógicas próprias das diferentes áreas do saber e da possibilidade de intersecção e colaboração entre elas, esse conhecimento busca encontrar a justa medida entre a profundidade e extensão do saber es­pecializado e a condição de aprendizagem por parte dos estudantes.

Claro que esse tenso equilíbrio só pode estar nas mãos do professor que, como produtor de conhecimento, é capaz de imprimir nas escolhas dos programas e estratégias didáticas os valores fundamentais e o potencial formador dos con­teúdos mediados por ele.

Assegurado esse valor cultural do conheci­mento socialmente construído, o que fazemos aqui no Colégio é colocá-lo em diálogo com nosso tempo. O Ensino Médio do Santa Cruz realiza com convicção a função social da escola de transmitir o legado do passado para a geração do presente construir o futuro.

Promover a articulação desse saber acumu­lado com o presente implica valorizar a cultura humana e reconhecê-la como matriz de criação e estímulo à produção de novos conhecimentos. Significa, ainda, não abrir mão da solidez da formação integral e humanista, somada à com­preensão do jovem de hoje e à consideração de suas necessidades.

Isso, envolve, evidentemente, tomar decisões cuidadosas pautadas em saberes e em incertezas. Por isso, questionar nossas escolhas e rotina é prá­tica constante do nosso trabalho. Estamos satisfei­tos com o que estamos fazendo? Em que medida? No que acertamos e no que podemos melhorar? Em que estamos acomodados? Como avaliamos nosso trabalho? Como nossos alunos percebem seus cursos e como avaliam suas aprendizagens?

As mudanças, para nós, acontecem em fun­ção desses questionamentos e da percepção de um problema ou de um desejo: são refletidas e estudadas coletivamente em situações que en­volvem professores, direção, alunos e famílias. Sabemos que as mudanças implicam escolhas e que ao lado de avanços conquistados há sempre perdas a considerar: essas ponderações estão sempre presentes em nossas decisões.

Essa é a postura de uma equipe educacional em movimento, que reflete acerca de si mesma, questiona pertinências, deseja se aperfeiçoar e propõe alterações de forma consequente. Uma equipe que não promove mudanças em função de pressões ou modismos que desconsiderem o contexto e a história desta escola, e que não se furta a enfrentar os desafios de renovação.

Abrir espaço para novos modelos de cursos, com condições de oferecer diferentes expe­riências de aprendizagem e recursos de ensino, foi um dos caminhos escolhidos para arejar e atualizar o currículo do Ensino Médio e variar as disposições típicas de uma sala de aula.

Com o objetivo de ampliar o repertório dos jovens e colocá-los em contato com um conteúdo não convencional no Ensino Médio, traduzimos em conhecimento escolar tópicos da ciência moderna como Física Quântica, Nanotecnologia ou Neurociências; conceitos da Economia e da Psicologia; temas da Mito­logia; políticas públicas que envolvem Esporte, Turismo ou Saúde; a prática da Fotografia, do Design e da Cultura Maker, entre outros, para que possam vivenciar, em classes menores, uma aproximação com saberes livres do pragmatismo que invade este nível de ensino.

Sentíamos falta, no percurso oferecido ao nosso aluno, de uma experiência de aprendiza­gem que envolvesse um grau maior de autono­mia, na qual em algum momento ele precisasse assumir maior responsabilidade sobre o que quer estudar, quais fontes consultar e decidisse como compartilhar com os outros o que apren­deu. Uma experiência escolar que envolvesse um trabalho mais autoral de maior fôlego. A partir de propostas dos professores, gestamos a disciplina Pesquisa Autoral, na qual o professor trabalha com classes de no máximo 20 alunos e alterna-se nas funções de apresentação de temas e orientação das pesquisas e trabalhos de alunos. Nesse espaço necessariamente se estabelece uma outra forma de o aluno se relacionar com o conhecimento, que exige mais habilidades de organização, pesquisa e análise por parte dos jovens, valoriza o rigor do registro acadêmico e, simultaneamente, abre novas possibilidades de explorá-lo.

Em 2018, dando sequência às alterações curriculares iniciadas em 2017, oferecemos cursos de Eletivas Disciplinares, que apro­fundam alguns assuntos ligados diretamente às disciplinas tradicionais de Ensino Médio e propiciam uma outra experiência de interação com o conhecimento escolar. São cursos semes­trais ligados a Matemática, História, Produção e Estudo de Textos, Química, Filosofia, Física, Geografia, Biologia, Literatura e Sociologia, oferecidos com a perspectiva de atender a um grupo de alunos majoritariamente interessados no assunto, com um professor apaixonado por ele. Esse ambiente em si já traz mudanças significativas para a experiência escolar. Além disso, essa disciplina inaugura um outro modelo de avaliação com ênfase, de fato, no processo. Sem um instrumento formal de avaliação e sem um conceito final, como estamos acostumados, a vivência do que é construído coletivamente em sala de aula ganha destaque: é ela que vai orientar a menção que o aluno receberá em seu boletim e histórico escolar. O princípio é valorizar a experiência significativa de sala de aula impossibilitando que essa vivência seja subs­tituída por algum outro processo que busque recuperá-la. Esse é mais um fator que aumenta o compromisso do aluno com sua aprendizagem, assim como viver um curso sem a pressão da prova ou do conceito promove outro tipo de encontro com o saber escolar.

Esses novos espaços no currículo do Ensino Médio ampliam as experiências escolares de nossos alunos e somam-se à vivência de um Núcleo Comum cuidadosamente selecionado e planejado para municiar nossos jovens de ferramentas poderosas de leitura da nossa so­ciedade, para criar um ambiente propício para o desenvolvimento do pensamento e dos afetos, para estimular habilidades importantes de cola­boração, de compreensão e de ação a partir do conhecimento aprendido.

 

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